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quarta-feira, outubro 04, 2006

Do arroz embolado, da alga e da carniça de peixe

Fazia, até ontem, três meses e meio que não colocava um pedaço de carne (e por carne, entenda-se qualquer cadáver - bixo morto) na boca. Claro que não posso garantir, para mim mesmo, que não comi nenhum resquício de animal. Almoço em bifês executivos, por mais que me esforce, devo ter engolido algum pedaço de defunto.
Note-se que não como carnes mortas, mas carnes vivas continuam no cardápio.


Foram ótimos esses três meses e meio. As refeições eram leves, e apesar de sair de algumas deles bem satisfeito, o peso do buxo (vísceras, estômago, intestino) não permanecia por 2 horas como em uma refeição carniceira. Convicto que retirar animais da dieta foi uma das melhores escolhas que já fiz, ontem realizei meu último teste: fui a um rodízio de sushi.

"Mas Sushi??. Gaúcho come Sushi??"
Gaúcho come muitas coisas. E apesar de não sermos fazões de peixe, a culinária japonesa adentrou nossa terra há um bom tempo.
É de conhecimento popular que churrasco é extremamente pesado: Maminhas, picanhas, salsichão, coraçãozinho, costela, costelão, linguiça, lombo de porco, costela de porco, galeto, ripa, polar, bohemia, skol. Meu estômago, já um pouco acostumado com o vegetarianismo, não ia suportar comida desse tipo. Então o teste iria até valer para carnes, mas para peixe que é muito mais leve não.

"Mas que mané teste é esse?" - Nerdzinho maloqueiro pergunta.
Eu queria confirmar por experiência própria, que apenas comemos carne por costume, cultura. Nosso organismo não parece ser preparado para digerir animais. E ontem verifiquei isso com a própria barriga.

No rodízio do Sashiburi (excelente por sinal) estão presentes os mais variados tipos de sushis e sashimis do mundo nipônico. E há três meses e meio atrás, esse restaurante estava entre meus TOP 3. Assim a experiência iria expor as modificações ocorridas em mim.

Entrando no estabelecimento, já senti a diferença. O cheiro de peixe era terrível. Parecia que eu estava nalguma peixaria podre do século XV (nem tanto, mas era ruim). Comecei com um misoshiro (sopa de queijo tofu com cebolinha) e uma tábua de shimeji (cogumelos na manteiga). Logo após vieram alguns rolinhos primavera de legumes, e muito gengibre na conserva (para o pós-janta/pré-sono). Tudo muito bem, tudo muito bom. Então o velório começou. Os defuntos vieram dispostos e muito bem decorados no seu barco fúnebre. Sashimis, makis, temakis, uramakis, niguiris, e assim vai. "Bueno" pensei, "Não vai ser um peixe morto que vai me derrubar" e com meus hashis (aqueles palitinhos nada práticos) em mãos avancei sobre o sashimi de salmão. Aí uma conclusão interessante: o que 4 meses atrás fazia eu chegar ao orgasmo gastrônomico, ontem o sashimi não passou de um troço frio, gorduroso e fibroso na boca. Parecia que tinha comido um daqueles brinquedinhos pra nenê morder, de plástico com água dentro. Decepção (por não sentir o mesmo prazer) /Satisfação (pelo teste funcionar). Fui para o meu segundo na lista - Skin: arroz com uma tira de peixe defumado com pele, envolto em uma fita de alga e uma espécie de mel. De novo o que era uma delícia passou a ser algo extremamente pútrido (na real, pelo sentido, esse adjetivo não cabe aqui - mas sua fono-semântica cabe) .

Depois de experimentar aqueles pedaços de cadáveres decoradinhos em cima de bolinhos de arroz, me senti como se tivesse saído de uma churrascada de domingo. A cabeça e o estrombo pesaram e fiquei até um pouco tonto. Precisava de ajuda. Não por acaso, vi fios de cenoura e de nabo no barquinho fúnebre. Avidamente, me traquei nos vegetais com bastante shoyo. Isso me aliviou um pouco. A garçonete perguntou se desejávamos mais alguma coisa. E o que me salvou a noite foram os sushis de couve-flor fritas, de brócolis e outros com shimeji que chegaram em seguida.

Não suei frio de noite, nem cheguei a vomitar. Mas o trabalho que foi dado ao digestor (sistema) foi grande. Imagino o que seria de mim se tivesse ido a uma galeteria. Não ia faltar tinta na porcelana.

Big Earl
Ainda não achei minha nave

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